Durante muito tempo eu acreditei que existiam dores das quais uma pessoa nunca conseguiria se recuperar, achei que algumas experiências deixavam marcas permanentes, capazes de definir quem somos para sempre.

Porque era isso que eu estava fazendo comigo, eu havia entregado toda minha vida e todo meu futuro nas mãos de quem havia me machucado, estava dando o poder a quem me fez mal de decidir onde aquela dor me levaria, e obviamente que ela não me levo a caminhos floridos, apenas me trouxe mais dor, mais dor e um acumulo de dores e traumas, até que um dia eu precisei acordar.

Hoje eu penso diferente, não porque eu esqueci, muito pelo contrário, eu descobri que existe uma diferença enorme entre carregar uma dor e viver preso a ela. Essa é uma das ideias mais importantes que construí durante minha caminhada.

Eu não acredito que tudo precise ser esquecido, também não acredito que o passado deva ser apagado para que possamos seguir em frente, na verdade, eu acredito que algumas dores merecem continuar existindo dentro de nós, mas em outro lugar.

Como se fossem guardadas em uma pequena caixa, uma caixa que não fica aberta o tempo todo, espalhando sofrimento pela casa inteira. Ela fica ali, guardada, fechada.

E, quando necessário, podemos abri-la com cuidado, olhar para aquilo que vivemos, lembrar do que aprendemos, agradecer pela força que nasceu dali e, então, fechá-la novamente.

Não para fugir. Mas para continuar vivendo.

Durante muito tempo eu vi pessoas tentando vencer o sofrimento lutando contra as próprias lembranças, quanto mais tentavam esquecer, mais pareciam aprisionadas ao que aconteceu.

Foi isso que me fez perceber que talvez o caminho não era sobre apagar a história, mas sim, mudar o significado que ela tem. Porque uma lembrança pode continuar existindo sem continuar machucando da mesma maneira, e isso muda tudo.

Outra coisa que transformou completamente a minha forma de enxergar a vida foi entender que nem toda experiência ruim veio apenas para me fazer sofrer, algumas vieram para me ensinar limites.

Outras me ensinaram a dizer “não”, algumas mostraram quem realmente caminhava ao meu lado e outras me obrigaram a construir uma força que eu nem imaginava possuir.

Hoje eu olho para muitas dificuldades como se fossem professores que eu jamais teria escolhido, mas que acabaram deixando lições importantes.

Não estou falando de romantizar a dor. Existem situações profundamente injustas, perdas difíceis e momentos que ninguém deveria viver, mas, quando elas acontecem, ainda acredito que existe uma escolha possível.

Podemos permitir que a dor seja o capítulo inteiro da nossa história, ou podemos deixá-la ocupar apenas algumas páginas. Por mais desafiador que fosse, eu escolhi a segunda opção.

Também deixei de esperar que um dia eu acordasse completamente curada de tudo, a vida não funciona assim. Ainda existem lembranças, ainda existem cicatrizes e ainda existem dias difíceis.

A diferença é que elas já não decidem quem eu sou, hoje elas fazem parte da minha história, mas não escrevem mais o meu futuro, estão guardadas em lugar de pouco acesso.

Talvez essa tenha sido a maior mudança de todas.

Eu parei de perguntar por que algumas coisas aconteceram comigo e comecei a perguntar o que eu poderia construir a partir delas, essa pergunta mudou a minha vida.

Ela me fez perceber que a força não nasce da ausência de sofrimento, ela nasce da decisão de continuar caminhando mesmo depois dele.

Não existe uma fórmula para isso, cada pessoa encontra seu próprio caminho.

Mas, se existe uma ideia que eu gostaria de deixar registrada na vida das pessoas, é esta:

Eu acredito profundamente na capacidade humana de se reconstruir, acredito que somos capazes de amadurecer sem endurecer.

De sofrer sem perder a sensibilidade, de recomeçar sem negar o passado e de transformar decepções em maturidade, perdas em sabedoria e cicatrizes em lembranças de tudo aquilo que um dia pensamos que não conseguiríamos suportar.

Talvez você esteja vivendo uma fase em que tudo parece pesado demais e se for o seu caso, eu não tenho como prometer que a dor vai desaparecer, mas posso compartilhar aquilo em que escolhi acreditar.

Você pode não conseguir mudar o que aconteceu, mas ainda pode decidir o lugar que essa história ocupará dentro de você. E essa decisão já é o primeiro passo de um grande recomeço.

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