Quantas vezes você deixou de fazer alguma coisa porque ficou imaginando o que os outros poderiam pensar?

Talvez tenha evitado gravar um vídeo, talvez tenha deixado de publicar uma foto, talvez tenha desistido de começar um projeto, falar em público, fazer uma pergunta, demonstrar carinho ou simplesmente ser você mesmo.

Em muitos momentos da vida, não é a falta de capacidade que nos impede de agir. Também não é a falta de oportunidades. É a vergonha!

Aquela sensação desconfortável que faz o coração acelerar, as mãos ficarem inquietas e a mente criar dezenas de cenários negativos antes mesmo de qualquer coisa acontecer, e as vezes ela parece proteção.

Mas, às vezes, ela é apenas uma prisão silenciosa. E talvez exista uma reflexão importante que poucas pessoas fazem: em algumas situações, a vergonha também pode ser uma forma de ego.

Não daquele ego arrogante que se sente superior aos outros. Mas de um ego que acredita estar sendo observado o tempo todo. Esse é assunto que para mim foi difícil e desafiador de encarar, e talvez seja para você também, mas veja bem:

A sensação de estar sempre no centro dos olhares

É curioso a forma como enxergamos a nós mesmos. Quando estamos prestes a fazer algo novo, temos a impressão de que todas as pessoas ao nosso redor estão prestando atenção em cada detalhe.

Pensamos que vão reparar nos nossos erros, que vão perceber nossa insegurança, que vão julgar nossa aparência, que vão rir das nossas tentativas.

Mas a verdade é que a maioria das pessoas está ocupada demais lidando com as próprias preocupações. Cada pessoa está tentando resolver seus próprios problemas, pagar suas contas, cuidar das próprias dores, enfrentar suas próprias inseguranças.

Enquanto estamos preocupados com o que os outros pensam sobre nós, muitas vezes os outros estão preocupados com o que pensamos sobre eles. É quase como se todos estivéssemos presos na mesma armadilha.

Uma armadilha construída pela autoconsciência exagerada.

O medo da exposição

Existe uma vulnerabilidade natural em ser visto, quando mostramos uma opinião, uma ideia, um trabalho ou um sonho, nos tornamos visíveis, e ser visível pode assustar.

Porque aquilo que permanece escondido nunca pode ser criticado.

Um livro não publicado não recebe avaliações, um vídeo nunca gravado não recebe comentários, um projeto abandonado não corre o risco de fracassar.

Mas também nunca tem a chance de florescer, a vergonha costuma nos convencer de que permanecer escondidos é mais seguro, e talvez seja mesmo.

Mas existe uma diferença enorme entre segurança e vida. Muitas vezes estamos tão ocupados tentando evitar a dor que acabamos evitando também as experiências que poderiam nos transformar.

A busca silenciosa por aprovação

Por trás de muitas vergonhas existe uma necessidade profunda de aprovação.

Queremos ser aceitos, queremos ser admirados, queremos sentir que pertencemos. E isso é humano.

Todos nós carregamos esse desejo em algum grau, o problema começa quando a aprovação dos outros passa a determinar nossas escolhas.

Quando deixamos de fazer algo porque talvez alguém não goste, quando deixamos de nos expressar porque talvez alguém critique, quando deixamos de tentar porque talvez alguém não aprove.

Nesse momento, nossa liberdade começa a ser entregue para opiniões que sequer controlamos. E a vida vai ficando menor, mais apertada e mais limitada. Até que, sem perceber, estamos vivendo uma versão reduzida de nós mesmos.

Quando a vergonha nos mantém presos

A vergonha raramente chega gritando. Ela costuma chegar sussurrando.

“Melhor não.”

“Vai passar vergonha.”

“E se der errado?”

“E se rirem de você?”

“E se não gostarem?”

Com o tempo, esses pensamentos vão construindo muros invisíveis. Muros que nos afastam de oportunidades, de relacionamentos, de experiências e de sonhos.

O mais curioso é que muitas vezes não estamos sofrendo por algo que realmente aconteceu, estamos sofrendo por algo que imaginamos que poderia acontecer.

E enquanto tentamos evitar um julgamento hipotético, acabamos julgando a nós mesmos com uma dureza muito maior.

A vergonha e o ego silencioso

Talvez essa seja a parte mais delicada dessa reflexão. Quando falamos em ego, costumamos imaginar alguém que se acha melhor do que os outros.

Mas o ego também pode aparecer de formas mais sutis. Ele aparece quando acreditamos que todas as atenções estão voltadas para nós, ou quando pensamos que nossos erros serão lembrados para sempre, ou quando acreditamos que cada detalhe da nossa vida está sendo analisado pelas pessoas ao redor.

No fundo, existe uma ideia silenciosa de centralidade, como se estivéssemos permanentemente no palco. Mas não estamos.

A maioria das pessoas mal se lembra dos próprios constrangimentos de anos atrás, quanto mais dos nossos.

Perceber isso não diminui nossa importância, pelo contrário, traz liberdade. Porque nos permite entender que podemos errar, aprender, recomeçar e continuar caminhando sem precisar carregar o peso impossível da perfeição.

A coragem de ser imperfeito

Talvez amadurecer tenha menos a ver com se tornar alguém extraordinário e mais a ver com aceitar a própria humanidade.

Aceitar que vamos errar, que vamos nos sentir inseguros, que algumas pessoas vão gostar da gente e outras não, que nem toda tentativa será bem-sucedida, e que tudo isso faz parte da experiência de estar vivo.

Existe uma beleza enorme em pessoas que continuam tentando mesmo sem g, parantiasessoas que publicam o primeiro vídeo, que começam um projeto, que fazem perguntas, que se permitem aprender, não porque são destemidas, mas porque entenderam que a vida é grande demais para ser vivida dentro de uma prisão construída pelo medo do julgamento.

Talvez ninguém esteja olhando tanto assim

Talvez uma das maiores libertações da vida seja perceber que não precisamos ser impecáveis para existir, que não precisamos impressionar todo mundo, não precisamos agradar todas as pessoas e que não precisamos esperar nos sentir prontos para começar.

A vergonha nos faz acreditar que precisamos proteger nossa imagem a qualquer custo, mas a autenticidade nos lembra que existe algo muito mais valioso do que parecer perfeito: ser verdadeiro.

E talvez seja justamente aí que mora a liberdade. Quando paramos de tentar controlar cada olhar, cada opinião e cada interpretação dos outros.

Quando aceitamos que algumas pessoas vão nos compreender e outras não, e quando entendemos que errar faz parte do caminho.Porque, no final das contas, a vida não acontece dentro da nossa cabeça. Ela acontece lá fora.

Nos passos que damos, nas tentativas que fazemos e nas experiências que vivemos.

E talvez a pergunta mais importante não seja:

“O que vão pensar de mim?”

Mas sim:

“Quantas coisas estou deixando de viver por causa desse medo?”

Talvez a resposta seja o começo da sua liberdade.

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